Guia do Maker para o Apocalipse Zumbi: novo livro de Simon Monk, via Novatec

Experiências com eletrônica, Arduino e Raspberry Pi tendo como pano de fundo um mundo pós-apocalíptico: como não amar?

O primeiro parágrafo de Livro Guia do Maker para o Apocalipse Zumbi já deixa claro o seu contexto, que vai na onda de filmes como World War Z e seriados como The Walking Dead: o livro é para quem gosta de criar e que se diverte com as fantasias de mundo pós-apocalíptico com recursos limitados.

Para isso, o autor (Simon Monk, um dos meus favoritos do ramo) segue uma sequência lógica bem específica, começando por processos de geração de eletricidade, passando pelos de vigilância e monitoração (defesa da base pós-apocalíptica) e completando com os de comunicação para localizar outros sobreviventes e manter contato (silencioso, inclusive) com eles.

Makers intermediários e avançados vão se divertir com as experiências e provavelmente expandir seu ponto de vista sobre alguns dos conceitos envolvidos, graças à integração provocada pelo divertido contexto adotado, que é o da escassez de recursos após um apocalipse zumbi.

Já os makers iniciantes vão se inspirar e encontrar vários caminhos para ampliar seu conhecimento de modo a poder colocar em prática (com supervisão de alguém habilitado, se o maker em questão for criança) os 20 projetos apresentados.

Por uma série de razões, muitos livros voltados ao público maker são fininhos, mas não é o caso: são 295 páginas numeradas, divididas em 11 capítulos (contendo 20 projetos) mais 3 apêndices.

Meu exemplar para review na véspera de Natal – achei apropriadíssimo ;-)

Recebi da Novatec Editora meu exemplar para review na véspera de Natal, e posso dizer que a ocasião foi oportuníssima, pois é um período em que há tempo e oportunidade para colocar leituras em dia. Mas o status comercial do livro está em transição: no site oficial ele consta entre os "últimos lançamentos", e também como "não disponível temporariamente". Como a editora Novatec já estava em seu recesso de final de ano quando o meu exemplar para review chegou, é possível que o site só passe a oferecê-lo de fato ao final do recesso, na primeira semana de janeiro.

Para aproveitar melhor o livro, faço duas observações:

  1. É óbvio – mas vale explicitar – que os projetos são apresentados num pano de fundo fantasioso para tornar mais divertida e envolvente a leitura, mas que sua aplicação ao mundo real pode ser avaliada caso a caso. Projetos como um sistema de monitoramento de carga de bateria automotiva com Arduino não são aplicáveis apenas a um mundo dominado pelos zumbis!
  2. Nem todos os projetos descritos têm a execução adequada para uma criança ou para alguém tendo seu primeiro contato com a eletrônica: o livro assume que as habilidade básicas (por exemplo, soldar) já estão presentes, que o leitor sabe onde obter os variados componentes mencionados1, e envolve vários riscos: não apenas o de choque ou queimadura na bateria do carro; seguir a indicação de ir fixar um painel solar no telhado da casa é um exemplo de situação que merece atenção especial, supervisão e cuidados.

Outra observação interessante é que o livro usa o vocabulário2 da Academia Brasileira de Letras e dos dicionários brasileiros, adotando a palavra voltagem para se referir à tensão elétrica medida em volts.

O conteúdo: 11 capítulos, 20 projetos

Após uma introdução e um capítulo inicial descrevendo mais amplamente esse contexto, chegamos ao cerne da obra: o conjunto de projetos, todos apresentados como uma sequência encadeada tendo como pano de fundo a ideia de sobrevivência em um universo hostil.

E ele começa com o pé direito: o primeiro projeto do livro apresenta como usar um painel solar doméstico (desses que você poderá recolher nos telhados da vizinhança alguns dias após o início do apocalipse zumbi) e um controlador de carga para carregar uma bateria automotiva. No mesmo capítulo encontramos um segundo projeto que usa para essa mesma finalidade um alternador de carro conectado à roda traseira de uma bicicleta, criando assim um gerador movido a pedal.

O capítulo seguinte é similar quanto ao propósito: explica como usar a eletricidade armazenada na bateria, reaproveitando (com cabos e grampos jacaré) um adaptador de tomada de acendedor de cigarros automotivo com saída de 12V ou 5V (USB), explicando sobre o uso dos inversores – para alimentar aparelhos a 110V ou 22V AC a partir dos 12V DC da bateria automotiva, e até como monitorar a carga da bateria (com direito a gráfico de barras em um display LCD barato, e alarme indicando o final da carga) usando um Arduino.

Um aspecto importante sobre os 2 capítulos acima é que os demais projetos do livro dependem, frequentemente, da disponibilidade de alimentação de 12V. Você pode obtê-la de outras origens, incluindo de uma fonte chaveada comum conectada à tomada mais próxima, caso vá seguir os experimentos antes de o apocalipse zumbi acontecer.

Você não encontrará a tradicional abordagem baseada em "conecte este pino ao outro pino usando uma protoboard".

A seguir temos 4 capítulos dedicados a segurança e monitoramento, que incluem um alarme de tropeço em cordão (com uma microchave e uma buzina de carro), um detector de zumbis com Arduino e sensor infravermelho PIR (que assume que os zumbis têm temperatura corporal parecida com a dos vivos, senão o PIR não os detectará...), um sistema de monitoramento de zumbis com Raspberry Pi e uma webcam (incluindo detecção de movimento), um controle que permite identificar se as portas da fortaleza estão abertas e fechadas, bem como travá-las e destravá-las, um alarme de incêndio com Arduino e detector de fumaça residencial, e um alarme de temperatura.

Os 4 capítulos acima não são o tradicional "conecte este pino ao outro pino usando uma protoboard". São mencionados vários componentes reaproveitados do âmbito automotivo ou doméstico, e os exemplos vão além do trivial básico: por exemplo, na câmera com Raspberry Pi, um led RGB conectado ao GPIO do Pi é usado para indicar, mudando de cor, a detecção.

O capítulo 8 une as experiências anteriores, conectando (via Bluetooth) o Arduino (com todos os sensores mencionados) e o Raspberry Pi (da câmera de monitoramento), para mostrar em uma janela deste o status de todos os sensores daquele.

O capítulo 9 força um pouco a fantasia (distrair zumbis...): tem um projeto que reaproveita o flash de uma câmera fotográfica velha para gerar efeitos luminosos, e outro que usa um motor para agitar uma bandeira, e um piezo para gerar sons.

Mas os capítulos 10 e 11, que tratam de comunicação, voltam ao tom divertido para apresentar projetos com utilidade prática mais direta: um transmissor FM com um Raspberry Pi e quase nenhum outro componente (2 fios, na verdade), um analisador de frequências (com Arduino e um rádio FM "de 1,99" com saída de fone de ouvido) para monitorar e detectar transmissões de outros grupos sem saber em que frequência eles operarão), um sinalizador morse luminoso com Arduino, e uma modificação deste para usar um discreto motor de vibracall de celular no lugar das lâmpadas.

Ao final dos projetos, encontramos 3 apêndices:

  • Componentes: uma lista dos elementos usados nos projetos, e onde podem ser encontrados, com referências tanto para a compra pré-apocalipse, quanto para a busca de reaproveitamento pós-apocalíptico.
  • Habilidades: uma apresentação rápida (e prática, mas talvez não suficiente sem outros materiais de apoio) de alguns dos requisitos básicos de conhecimento necessários para os projetos: desencapar, emendar, soldar, usar espaguete termoretrátil, usar multímetro
  • Arduino: o que é, elementos essencias de programação, como usar o screw shield.

Usuários iniciantes aproveitarão melhor se antes lerem um livro introdutório

A minha impressão sobre o livro “Guia do Maker para o Apocalipse Zumbi” foi completamente positiva, mas é importante fazer uma ressalva: quem já tem conhecimentos intermediários nas áreas envolvidas vai se divertir bem mais. Isso porque vários dos projetos apresentados envolvem conhecimentos práticos intermediários e interdisciplinares, e disponibilidade de infraestrutura.

Acredito que o autor Simon Monk, que é experiente no ramo, doutor em engenharia de software e já escreveu outros livros muito bons – tanto introdutórios quanto avançados – sobre eletrônica e o universo maker, esteja usando uma abordagem que eu aprovo: despertar antes o interesse, e assim inspirar o leitor a ir procurar o conhecimento básico que ele perceberá, aos poucos, que ainda lhe falta.

Por exemplo, para o projeto de câmera de monitoramento sem fio, é necessário dispor de uma rede WiFi, plugar a câmera nela, instalar o sistema operacional e determinados pacotes no Raspberry Pi, montar um esquema com led RGB no seu GPIO, colocar o Pi na mesma rede sem fio, inserir um programa nele, e assim por diante.

Todos esses passos são apresentados mas, se cada um deles exigir um passo a passo "do zero" para o leitor, a curva de aprendizado ficará íngreme demais para se manter divertida, na minha opinião. Não que seja impossível, claro.


O livro: Livro Guia do Maker para o Apocalipse Zumbi. De Simon Monk, tradução brasileira via Novatec Editora (tanto o original quanto a tradução são de 2015). 296 páginas. Faça download em PDF do sumário e do capítulo de exemplo.

 
  1.  O livro apresenta referências de lojas dos EUA, como Adafruit e Fry's.

  2.  Que todo professor de física, de eletrônica e de engenharia que eu conheci até hoje nega...

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